
Entreatos é um documentário dirigido por João Moreira Salles que mostra os bastidores da campanha presidencial de Lula em 2002. Mas, não só isso. É naturalmente interessante a premissa do filme, uma vez que muita gente tem curiosidade em saber o que acontece por trás das câmeras, das maquiagens e das palavras e gestos ensaiados. O documentário se torna ainda mais atraente. Quando se acrescenta os fatos de que a campanha eleitoral em questão é de uma das maiores figuras políticas do Brasil, um mito da história da esquerda mundial e um de homem que, apesar de todas as adversidades provenientes da sua origem e posterior postura política radical, conquistou a simpatia de milhões de brasileiros.
Entreatos não mostra apenas a transformação do Lula carrancudo para o Lulinha Paz e Amor. Exibe também a rotina sobre humana de todos aqueles que fizeram a campanha acontecer, desde o hiperativo publicitário baiano Duda Mendonça até a figurinista que combinava camisas, ternos e gravatas, da futura primeira dama Marisa Letícia até o barbeiro do futuro presidente Luiz Inácio da Silva. Todos ficaram expostos ao corre corre dos últimos dias de campanha do primeiro turno e posteriormente do segundo turno. Evidentemente, sempre que todos também ficaram expostos aos olhos e às lentes curiosas da equipe de produção do documentário. A câmera em Entreatos é aquela intrusa que entra pela fresta das portas, em reuniões, gravações da propaganda eleitoral, almoços, lanches, nos momentos de descanso e conversas informais entre um translado e outro, nos comícios, discussões estratégicas e etc. Onde esteve Lula, esteve o cinegrafista.
É claro que Duda Mendonça deve ter enxergado na oportunidade uma chance de promover publicidade a favor de Lula a longo prazo e ajudado o presidente a decidir pela permissão da presença de uma equipe nos momentos mais íntimos de uma campanha eleitoral. Um fato que não tiraria o mérito do filme: os acontecimentos parecem espontâneos e somente uma vez ou outra dá pra perceber quando alguém fala algo só porque está sendo filmado. De resto, o stress e a correria é tanta, que a equipe do documentário é até esquecida.
Entreatos revela que a equipe que trabalhou na campanha da primeira eleição de Lula, acima de qualquer obrigação legitima das funções exercidas no contexto, foi composta por pessoas que realmente acreditavam naquele homem como presidente, pessoas apaixonadas por aquele pernambucano independentemente do PT, da sua origem sindical ou de qualquer outra rotulação política. Pessoas que acreditavam no Lula, e só. Revela ainda momentos engraçados de José Alencar, desconfiados de Zé Dirceu, passivos de companheirismo de Marisa e instantes que mostravam a garra e a vontade dos seus assessores e a fé dos eleitores. Mas, acima de tudo, mostra um homem que dedicou sua vida a um propósito: o de governar seu país. Um homem normal, que fuma, conta piada, bebe, abraça, reclama, sorri, xinga, batuca e que come sanduíches. Um homem que conta que uma das suas vontades é colocar uma trave de futebol na área verde no Palácio da Alvorada para “fazer uma pelada” com sua família e amigos e ainda assim se preocupa com um eleitor que vai cumprimentá-lo no aeroporto dizendo que vê-lo era uma compensação por ter perdido o voou. Lula pergunta para onde o rapaz estava indo, era, coincidentemente, para o mesmo lugar que a comitiva e o futuro presidente “dá uma carona” para o rapaz que fica extasiado durante toda a viagem (um dos momentos mais emocionantes do filme).
O documentário é tenso, porque assim foi essa campanha eleitoral de 2002, que cresceu de forma expressiva a medida que saia mais um resultado de pesquisas ou a cada dia que ganhava mais uma voz gritando “Agora é Lula”.
Confesso que não assisti a Entreatos “com olhos neutros”. No que diz respeito ao “homem Lula”, numa visão acrítica com relação às suas responsabilidades como presidente durante esses seis anos e deixando de lado os méritos ou deméritos como governante do nosso país, sempre fui influenciada a admirá-lo. Desde criança, Lula é uma figura mitológica presente da minha vida. Minha família sempre foi de engajados políticos, sindicalistas, lulistas incondicionais. Hoje, tenho uma tia que trabalha na assessoria da presidência que conta histórias sensacionais sobre o presidente.
Nesse caso, me posicionei muito mais como eleitora brasileira, aquela que digitou o 13 três vezes na urna, do que como jornalista, se for possível essa distinção. Ainda assim, indico Entreatos por ser um documento valioso sobre a campanha de 2002, sobre comportamentos de políticos e de eleitores de Macapá até Porto Alegre e sobre a garra e a dedicação de quem se propõe filmar dias tão críticos “no olho do furacão”.


